Crianças Felizes

Crianças Felizes

O que torna felizes as crianças?
– As crianças ficam felizes quando seus pais – ambos os pais – estão felizes com elas. E quando é que
ambos os pais ficam felizes com a criança? – É quando cada um respeita e ama na criança o seu parceiro
(a sua parceira) e se alegra com ele (com ela).
Falamos muito de amor. Mas quando é que o amor se mostra em sua forma mais bela? – É
quando eu me alegro com a outra pessoa, exatamente como ela é. É quando nos alegramos com nossa
criança, exatamente como ela é.
O poder que os pais percebem ter sobre os filhos – e, sobretudo, as mães o sentem de uma forma
particularmente profunda, na medida em que vivem tanto tempo em simbiose com eles – deve ser
vivenciado como uma missão. Não como um poder pessoal, mas como um poder temporário, a serviço da
criança.
Algum tempo atrás, num dos meus cursos, compareceu uma mulher, trazendo no colo uma
criança de cinco meses. Estava sentada ao meu lado, e eu lhe disse: “Olhe através da criança, para algo
que está longe, atrás dela”. Ela olhou para longe, através da criança. De repente, a criança respirou
profundamente e sorriu para mim. Ela ficou feliz. – Assim, nessa relação que ultrapassa a criança, ambos
ficam mais livres: os pais e a criança. Ambos podem ajustar-se melhor à sua própria destinação, alegrarse
com ela, e assim deixam livre o outro, na medida em que isso é necessário.
O que é esse algo distante, para onde a mulher dirigiu o olhar? – É o destino de cada um, o seu
próprio destino e o da criança. É, até mesmo, algo além do destino. É algo que permanece oculto de nós.
Em sua presença permanecemos humildes; não obstante, sabemos que isso nos conduz e sustenta de um
modo particular.
Ajudar crianças difíceis
O amor que sabe
Umas das causas de dificuldades para as crianças é a idéia de que elas têm a capacidade ou o direito de
assumir algo por seus pais ou antepassados. Isso cria intermináveis problemas para as crianças – e, de
uma certa maneira, também para seus pais. Para entender isso, é preciso saber algo sobre as diversas
consciências.
A boa e a má consciência
Sentimos nossa consciência como boa consciência ou como má consciência – como inocência ou como
culpa. Muita gente acham que isso tem a ver com o bom e o mau. Mas não é assim. Isso diz respeito à
ligação ou à separação, em relação à família. Todo mundo sabe instintivamente, através da consciência, o
que precisa fazer para pertencer à sua família. Uma criança sabe instintivamente o que deve fazer para
pertencer a ela. Quando se comporta de acordo com isso, tem uma boa consciência. Uma boa consciência
significa, portanto: Sinto que tenho o direito de pertencer.
Quando uma criança se afasta disso, ou quando nos afastamos disso, temos medo de perder essa
ligação. Sentimos esse medo como má consciência. Má consciência significa, portanto: Tenho medo de
ter perdido o meu direito de pertencer.
Sentimos boa consciência e má consciência de maneiras diferentes em diferentes grupos, e até
mesmo diante de diferentes pessoas. Por isso temos, por exemplo, uma consciência diferente diante do pai
e uma consciência diferente diante da mãe, e temos consciências diferentes consciências diferentes na
profissão e no lar. Dessa maneira, a consciência está sempre mudando, pois nossa percepção varia de um
grupo para outro e de uma pessoa para outra, e consequentemente são coisas diferentes as que temos de
fazer ou omitir, em cada caso, para pertencer.
Ajudados pela consciência, distinguimos também aqueles que pertencem a nós daqueles que não
pertencem. Na medida em que nossa consciência nos liga à nossa família, ela nos separa dos outros
grupos ou pessoas, e exige de nós que nos afastemos deles. Por esta razão, temos frequentemente, por
causa de nossa consciência, sentimentos de rejeição e mesmo de inimizade em relação a outros grupos e a
outras pessoas. Essa rejeição decorre da necessidade de pertencer, e tem pouco ou nada a ver com o que é
bom ou mau.
Essa é, portanto, uma das consciências, aquela que nós sentimos. Com sua ajuda, distinguimos
entre o bom e o mau, mas sempre apenas em relação a um determinado grupo.
O emaranhamento
Entretanto, existe também uma outra consciência, oculta e arcaica, uma consciência coletiva, que segue
leis diferentes da consciência que nos é manifesta. É a consciência do grupo. Essa consciência vela para
que todos os membros da família obedeçam a determinadas ordens que são importantes para a
sobrevivência e a coesão do grupo.
A primeira dessas ordens é que todos os que fazem parte do grupo têm igual direito de pertencerlhe.
Às vezes, porém, sob o influxo da consciência que sentimos, excluímos pessoas da família: por
exemplo, pessoas que julgamos más, ou pessoas de quem temos medo. Nós as excluímos por considerálas
perigosas para nós.
Entretanto, isso que fazemos com a consciência que sentimos é condenado por essa outra
consciência oculta, pois ela não tolera que alguém seja excluído. Quando isso acontece, alguém será
condenado mais tarde, sob o influxo dessa consciência secreta, a imitar e representar em sua vida o
excluído, sem que se dê conta disso. Chamo de emaranhamento esse vínculo inconsciente a uma pessoa
excluída.
A partir daí entendemos que muitas crianças que apresentam comportamentos estranhos, correm
risco de suicídio ou se drogam estão em ligação com uma pessoa excluída. Elas estão enredadas com essa
pessoa. Assim sendo, só é possível ajudá-las quando elas e outras pessoas da família voltarem a olhar para
a pessoa excluída e a acolherem de novo na família e no coração. Com isso as crianças se libertam desse
emaranhamento.
Para ajudar tais crianças, outras pessoas da família, que até então desviaram o olhar, precisam
finalmente encarar isso. Aqueles que estavam com raiva de alguma pessoa ou a rejeitaram, precisam
voltar-se para ela com amor e acolhê-la de novo na família. Essa é a causa de muitas dificuldades das
crianças, bem como das preocupações que os pais às vezes têm por elas.
O amor cego
Para essa outra consciência, a consciência secreta, vale ainda uma outra lei, que também traz problemas
para as crianças. Essa lei exige que os mais antigos na família têm precedência sobre aqueles que vieram
depois. Existe, portanto, uma hierarquia entre os membros mais antigos e os mais novos da família. Essa
hierarquia precisa ser respeitada.
Muitas crianças, porém, se arrogam a assumir algo em lugar de seus pais, para ajudá-los. Assim
fazendo, transgridem essa hierarquia. Nesse caso, a criança diz interiormente à mãe ou ao pai, sob o
influxo de sua consciência, frases como estas: “Eu carrego isso por você”, “Vou expiar por você”, “Eu
fico doente por você”, “Vou morrer em seu lugar”. Tudo isso acontece por amor, mas por um amor cego.
Esse amor cego leva a comportamentos como vício, risco de suicídio ou comportamento agressivo. Esses
comportamentos e esse risco de suicídio decorrem da tentativa de assumir algo em lugar dos pais. Pois
isso transgride e fere essa ordem da consciência oculta.
A ordem
Quando existe conhecimento sobre essa hierarquia é possível restaurá-la. Isso exige, por exemplo, que os
pais assumam as consequências do próprio comportamento e do próprio emaranhamento e as carreguem
sozinhos. Isso libera a criança. Pois ela já não precisa assumir por outros algo que diz respeito apenas a
eles.
Entretanto, a transgressão da ordem original é severamente punida por essa consciência secreta.
Toda criança que tenta assumir algo em lugar dos pais ou de outras pessoas que a precederam na família,
fracassa. Nenhuma tentativa de assumir algo pelos pais é bem sucedida: é sempre condenada ao fracasso,
e para todos os envolvidos. Isso precisamos saber. E por isso ajudamos as crianças a se livrarem dessa
intromissão. Em lugar de olhar para as crianças, devemos primeiro olhar para os pais e deixar que eles
resolvam o problema por si mesmos. Quando o tiverem feito, as crianças se sentem livres. Elas voltam a
ficar em paz e sentem-se aliviadas.
Estas são, portanto, as duas leis básicas que devemos ter em vista e compreender internamente,
se quisermos ajudar filhos difíceis.
Todas as crianças são boas – e seus pais também
Quando digo: “Todas as crianças são boas – e seus pais também”, talvez alguns sacudam a cabeça. Como
isso é possível? Essas afirmações têm um largo alcance. Pois elas dizem, simultaneamente, que também
nós somos bons, que fomos bons como crianças e que continuamos sempre bons. Elas dizem que também
nossos pais são bons porque foram crianças, que foram bons como crianças e também são bons como
pais.
Quero esclarecer algo sobre o que fundamenta essa frase, evitando a falação superficial de quem
diz: “Mas a criança fez isso e aquilo, e os pais fizeram isso e aquilo”. – Sim, eles fizeram isso. Mas por
quê? – Por amor.
Naturalmente, a conclusão aqui é que toda pessoa, da forma como é, é boa. Que ela é boa
justamente porque é tal como é. Que, por causa disso, não devemos nos preocupar conosco, com as
crianças ou com nossos pais, indagando se são bons ou não. Apenas o nosso olhar é às vezes obscurecido,
de modo que não vemos onde somos bons, onde as crianças são boas e onde seus pais são bons. Isso eu
gostaria de esclarecer, inicialmente numa visão geral.
O campo espiritual
A prática das constelações familiares revelou que estamos vinculados a um sistema maior, a um sistema
familiar. A esse sistema pertencem não apenas nossos pais e os irmãos, mas também os avós, os bisavós e
os antepassados. Pertencem também a esse sistema aqueles que foram particularmente importantes para
esse sistema como são, por exemplo, os parceiros anteriores de nossos pais ou avós. Nesse sistema todos
são dirigidos por uma força comum. Essa força segue determinadas leis.
O sistema familiar é um campo espiritual. Dentro desse campo – como podemos vivenciar nas
constelações familiares – todos estão em ressonância com todos. Às vezes, esse campo está em desordem,
e essa desordem se origina quando alguém que pertence ao campo foi excluído, rejeitado ou esquecido.
Essas pessoas, que foram excluídas e esquecidas, estão em ressonância conosco e se fazem valer no
presente. Pois nesse campo vale uma lei básica: Todos os que são parte da família têm igual direito de
pertencer-lhe. Ninguém pode ser excluído. Ninguém se perde desse campo, mas continua agindo nele.
Quando alguém foi excluído, seja qual tenha sido a razão, um outro membro da família, sob o influxo
desse campo e da ressonância, é destinado a representar essa pessoa. Então esse membro da família, que
pode ser uma criança, se comporta de modo estranho. Talvez se torne drogado, doente, criminoso ou
agressivo. Talvez se torne mesmo um assassino, um esquizofrênico, ou seja o que for. Mas por quê?
Porque essa pessoa olha com amor para um excluído e, pelo seu comportamento, ela nos força a olhar
com amor para essa pessoa rejeitada e excluída. Esse comportamento pretensamente mau é amor por
alguém que foi excluído nesse campo.
Em vez de olharmos com preocupação para uma tal criança e tentarmos mudá-la – o que, aliás,
não ajuda porque, como vocês já sabem, há forças maiores em ação – olhamos com essa criança para esse
campo a que pertencemos, a esse campo espiritual, até que, guiados por essa criança, possamos olhar para
o lugar onde aquela pessoa excluída espera que a olhemos e acolhamos de novo em nossa alma, em nosso
coração, em nossa família, em nosso grupo, talvez também em nosso povo.
Portanto, todas as crianças são boas quando permitimos que sejam boas – isto é, quando nós, em
vez de olharmos para elas, olharmos para onde elas olham com amor.
Esta é a grande experiência nas constelações familiares: em vez de nos preocuparmos com essas
crianças ou com outras pessoas, pensando a respeito delas: “Como podem se comportar assim?”,
olhamos, junto com elas, para a pessoa que foi excluída e a recebemos de volta em nosso meio. Logo que
essa pessoa é acolhida na alma dos pais, da família e do grupo, a criança respira aliviada e pode
finalmente livrar-se de seu envolvimento com aquela pessoa.
Quando sabemos disso, podemos aguardar, até que reconheçamos para onde o comportamento
dessa criança nos dirige, em que direção ele nos guia, como pais ou outros membros da família. Quando
vamos até lá com as crianças e acolhemos em nós a outra pessoa, as crianças são redimidas.
Quem mais é redimido? – Também os pais e outros membros da família. De repente, ficamos
diferentes ou mais ricos, porque voltamos a dar lugar em nós a algo que fora excluído. Agora, no
presente, todos podem comportar-se de outra maneira, com mais amor e mais indulgência. Assim
superamos nossas superficiais distinções entre o bom e o mau, com as quais talvez nos consideremos
melhores e os outros piores – embora os outros, que olhamos como maus, sejam apenas pessoas que
amam de uma outra maneira. Quando olhamos, junto com as crianças, para onde elas olham, cessam essas
distinções entre bom e mau.
Uma outra conclusão, naturalmente, é que também nossos pais são bons e que, por trás de tudo o
que neles talvez critiquemos, atua o amor. Esse amor, porém, não se dirige para nós, mas para um outro
lugar, para onde eles olharam quando crianças, para alguém que quiseram trazer de volta para a família.
Quando começamos a dar um lugar em nós a todos esses excluídos, olhamos, também nós, junto com
nossos pais, para onde eles amam. Então seremos livres, nós como nossos pais. De repente, sentimo-nos
numa outra situação, completamente nova, e aprendemos o que significa um amor verdadeiro.
O amor secreto da criança
Aquilo que se manifesta no comportamento das crianças, frequentemente causando muita aflição, é algo
que é necessário no sistema, mas que os outros membros recusam. A criança assume isso em lugar dos
outros. Ela olha com amor para os excluídos. Por trás de todo esse comportamento atua um amor secreto.
Portanto, no trabalho com crianças difíceis, não olhamos para a criança, mas para onde a criança olha.
Então começa um movimento, um movimento salutar que libera a criança, porque os outros já olham para
onde precisam olhar. Com isso, a criança já não precisa olhar nessa direção, no lugar deles, nem se
comportar de modo correspondente. É esse o procedimento essencial nesse trabalho de ajudar as crianças.
Quando pensamos o que acontece com muitas dessas crianças, vemos que são tratadas e recebem
remédios como se houvesse algo anormal com elas. Mas nisso elas estão fazendo algo pelos outros, pelos
adultos. Por esta razão, essa forma de ajuda às crianças é pioneira e abre possibilidades completamente
novas. Mas apenas quando não olhamos para as crianças, mas sim, com elas, para onde elas são atraídas e
para o que elas querem fazer em lugar dos adultos. Então as crianças ficam aliviadas. Quem precisa
mudar são os pais e os outros envolvidos. Eles precisam encarar aquilo que não encararam. Com isso
começa uma evolução, um processo de crescimento, primeiramente nos pais. Só então as crianças ficam
livres.
A ordem
Isso é pedagogia sistêmica, uma pedagogia totalmente diferente. Esse é o segredo deste trabalho aqui. Ele
é uma forma especial de ajuda à vida. Aqui eu ajudo crianças a sair de um emaranhamento e coloco algo
em ordem em seu sistema familiar.
A desordem num sistema é sempre a mesma: pessoas que pertencem são excluídas. A um
sistema pertencem também todas as vítimas de membros dessa família. Se alguém teve parte na morte de
outros, talvez de uma forma bem culposa, esses mortos pertencem ao sistema. Eles estão presentes. Eles
atuam e se manifestam, frequentemente através de uma criança. Então essa criança olha para lá. Mas se os
outros não olham na mesma direção, isso não ajuda. Aqueles a quem isso realmente compete é que devem
olhar para lá. Então essa desordem é reparada.
‘Ordem’ sempre significa que algo excluído foi reintegrado. É isso que tenho constantemente
diante dos olhos em meu trabalho, em primeiro lugar, agora e no futuro. Isso é ajuda à vida, nessa forma
abrangente. Ela abre o olhar para outros contextos, nos quais fica então mais simples ajudar as crianças e,
naturalmente, ajudar também os seus pais.
Exemplo: “Eu fico com você”
Ajudante: Trata-se de um menino de 12 anos que escapa do controle dos pais e professores. Seu
comportamento é caótico e agressivo. Seu pai está doente.
Hellinger: Que doença tem?
Ajudante: Chagas crônicas nas pernas e pressão muito alta.
Hellinger: para o grupo Quando pensamos no que ele descreveu: Para onde olha o menino? Para onde vai
o seu amor?
Ajudante: Para o pai.
Hellinger: Isso é muito claro.
Depois de alguma reflexão: Quando percebemos isso, qual é a frase que o menino diz interiormente? Ele
diz ao pai: “Eu fico com você”.
O que o pai diz a ele?: “Eu me alegro com você”.
O que você diz a ele, como seu professor?: “Vejo o seu amor e me alegro com isso”.
Agora você tem o pai em seu coração, isso se vê imediatamente. Se você o tem em seu coração, você sabe
onde o menino está acolhido. OK?
Ajudante: Sim.
Hellinger: Está bem.
Exemplo: A filha não quer ir à escola
Hellinger a uma mulher: De que se trata?
Mulher: Minha filha não quer ir à escola. Está cursando o quarto ano. Ela se recusa, cada vez mais, a ir
para a escola e também a sair de casa.
Hellinger: O que acontece com o pai de sua filha?
Mulher: O pai é muito mais jovem do que eu. Nunca mais estivemos juntos por muito tempo. Agora
tentamos mais ou menos nos separar. Eu o envolvi muitas vezes no assunto, mas ele está muito envolvido
com seus assuntos pessoais.
Hellinger: Quantos anos ele é mais jovem do que você?
Mulher: 22 anos.
Hellinger: 22 anos mais jovem? Sim? Bem, então vou começar com a filha.
Hellinger escolhe uma representante para a filha e a deixa de pé. A filha mexe os dedos com inquietação
e esfrega as mãos. Então olha para o chão.
Hellinger deixa que ela volte a sentar-se por um momento. Em seguida, escolhe uma
representante para a mãe da menina. Essa representante vira a cabeça para o lado. Então olha para o
chão e de vez em quando fecha os punhos. Ela se agacha e esfrega o chão com uma das mãos, como se
quisesse apagar alguma coisa, enquanto fecha o outro punho.
Hellinger pede à representante da filha que se coloque diante da mãe, a uma certa distância. A
mãe continua a esfregar com força o chão.
Hellinger à representante da filha: Diga à sua mãe: “Eu tomo conta de você”.
Filha: Eu tomo conta de você.
A mãe continua a esfregar o chão e enquanto isso levanta os olhos para a filha. A filha se aproxima da
mãe. Esta se afasta e esfrega o chão com ambas as mãos. Olha rapidamente em direção da filha, mas
logo se vira para o outro lado. A filha estende os braços, como se quisesse ajudar a mãe. A mãe se
ajoelha e quase toca o chão com a cabeça. Ela continua a esfregar o chão com ambas as mãos.
Hellinger depois de algum tempo, às representantes: Está bem, agradeço a vocês.
Para a mulher: Está claro por que razão sua filha quer ficar em casa?
Mulher: Ela me protege, quer me ajudar.
Hellinger: Sim, ela tem medo que você morra ou cometa suicídio.
A mulher acena que sim, comovida, e começa a chorar.
Mulher: Você pode me ajudar, dizendo em que direção devo olhar?
Hellinger: Não posso me intrometer nisso. Aí existe um segredo e devo respeitá-lo.
A mulher continua a respirar profundamente e concorda com a cabeça.
Hellinger depois de algum tempo: Você pode fazer um exercício com sua filha. De manhã, antes do início
das aulas, você diz a ela: “Você pode confiar, hoje eu fico”. Antes que ela vá para a escola. Na manhã
seguinte você lhe repete: “Hoje eu fico. Você pode ir tranquila para a escola”.
A mulher ri, aliviada.
Hellinger: Está bem?
Mulher: Agradecida.
Hellinger para o grupo: Parece ser um problema, e é puro amor. É puro amor na filha.
Ambos os pais
Toda criança tem dois pais. Ela precisa sempre de ambos. Uma criança precisa ter o direito de amar
ambos os pais. Uma criança não entende por quê seus pais se separam. Ela ama os dois da mesma
maneira. Mas às vezes, quando os pais se separam e a criança fica com a mãe, ela depende de sua mãe em
tudo. Às vezes, ela tem medo de mostrar que ama o pai da mesma maneira. Ela teme que a mãe fique
zangada e que, além do pai, ela venha a perder também a mãe. Mas secretamente ela sempre ama o pai.
Quando ela ouve a mãe dizer que amou muito o pai, ela pode mostrar à mãe que também ama o pai. Então
a criança se sente aliviada.
O movimento de aproximação interrompido
Um trauma infantil muito comum é a interrupção precoce do movimento de aproximação da criança em
direção à mãe ou ao pai, especialmente em direção à mãe. Quando o amor não pode chegar ao seu objeto,
a criança fica triste ou raivosa, e às vezes também desesperada. Essa raiva, esse desespero ou essa tristeza
são a outra face do amor, de um amor que não pôde alcançar o seu objeto.
Quando essas crianças, mais tarde, querem aproximar-se de outra pessoa, a recordação daquela
interrupção é despertada novamente em seu corpo e o movimento de aproximação em direção a essa
pessoa é cortado. Assim, elas não conseguem levar adiante o amor e com isso se movem frequentemente
em círculos. Sempre que chegam ao ponto onde as emoções daquela época são sentidas de novo, elas
param. Em vez de ir em frente, elas se desviam e começam um movimento circular que se afasta e volta
ao ponto em que se deu a interrupção prematura. Na relação seguinte com uma outra pessoa, o círculo
recomeça, mas desta vez até o ponto mencionado. Esse movimento circular que sempre retorna ao mesmo
ponto, sem progredir, descreve o que se chama de neurose. É um movimento circular que sempre retorna
ao ponto onde um movimento de aproximação foi interrompido.
Como levar posteriormente ao seu termo o movimento de aproximação interrompido
Através dos pais
Quem pode levar ao termo da melhor maneira um movimento de aproximação interrompido é a mãe da
criança, porque em geral é a ela que tal movimento se dirige. Com crianças pequenas a mãe ainda
consegue fazer isso com facilidade. Ela toma a criança nos braços, aperta-a amorosamente contra si e a
abraça com firmeza por tanto tempo até que esse amor, que devido à interrupção tinha se transformado
em raiva e dor, volte a fluir livremente para ela como amor e anseio, e a criança relaxe em seus braços.
Também um filho adulto pode ser ajudado pela mãe, enquanto ela o mantém em seus braços, a
finalizar o movimento de aproximação interrompido, dissolvendo as consequências da interrupção. Nesse
caso, porém, é preciso que o processo regrida à época em que ocorreu a interrupção. O movimento de
aproximação deve ser retomado no mesmo ponto em que foi interrompido e deve ser dirigido ao mesmo
objeto daquela época. Pois é a criança daquele tempo que anseia por aquela mãe e ainda hoje continua a
buscá-la. Por isso, durante o abraço, tanto o filho quanto a mãe precisam sentir-se como a criança e a mãe
daquela época. A questão é: Como se consegue o que torna a unir pessoas por tanto tempo separadas?
Darei um exemplo: Uma mãe estava preocupada com sua filha adulta. Esta, porém, evitava a
mãe e raramente vinha à sua casa. Eu disse à mãe que ela precisava abraçar sua filha mais uma vez, da
mesma forma como uma mãe carrega uma criança triste. Mas ela não devia fazer coisa alguma, apenas
deixar essa imagem agir em sua alma, até que a realização se oferecesse por si mesma. Um ano depois,
contou ela, sua filha chegou em casa, aconchegou-se em silêncio carinhosamente à mãe, que a abraçou
ternamente por muito tempo. Então a filha se levantou e foi embora. Nenhuma das duas disse qualquer
coisa.
Através de representantes dos pais
Quando a mãe ou o pai não estão disponíveis, podem ser substituídos por ajudantes. Eles podem ser
parentes ou educadores, quando se trata de crianças pequenas, e talvez um experimentado psicoterapeuta,
no caso de um filho adulto. O ajudante ou terapeuta deve aguardar o momento adequado. Ele se conecta
interiormente à mãe ou ao pai da criança, e age apenas como seu substituto, como se recebesse deles esse
encargo. Ele deve amar a criança em lugar dos pais, deixando que passe por ele e chegue aos pais o amor
que o filho exteriormente lhe manifesta. Logo que a criança completa o encontro com os pais, o terapeuta
silenciosamente se retira. Assim, apesar de toda a intimidade, ele preserva o distanciamento e fica
internamente livre.
A reverência profunda
Com um filho adulto, o movimento de aproximação pode ser obstado se ele despreza os seus pais ou os
censura porque se julga melhor ou pretende ser melhor do que eles, ou por querer deles coisas diferentes
do que efetivamente recebe. Nesses casos, o movimento de aproximação deve ser precedido de uma
profunda reverência.
Essa reverência profunda é, antes de tudo, um ato interior. Entretanto, ela ganha profundidade e
força quando é feita de forma visível e audível. Isso acontece, por exemplo, quando, num grupo
experiente, se faz a constelação da família de origem do filho. Então a “criança” se ajoelha diante dos
representantes de seus pais, inclina-se até o chão diante deles, estende-lhes os braços, com as mãos
abertas e voltadas para cima e permanece nessa postura pelo tempo necessário até que se disponha a dizer
a um deles ou a ambos: “Eu lhe(s) presto homenagem”. Às vezes, pode acrescentar: “Sinto muito” ou “Eu
não sabia” ou “Vocês me fizeram muita falta” ou simplesmente: “Por favor!” Somente então o filho pode
levantar-se e se aproximar de seus pais com amor, abraçá-los ternamente e dizer: “Querida mamãe”,
“Querida mãezinha”, “Querido papai”, “Querido paizinho”, ou simplesmente: “Mamãe”, “Papai”, ou da
forma como os chamava na infância.
É importante que os representantes dos pais se conservem em silêncio durante todo o processo e,
principalmente, que não vão ao encontro do filho quando ele se inclina diante deles, mas recebam a
homenagem no lugar dos pais, até que o respeito tenha sido expresso de modo suficiente e o fator de
separação seja dissolvido. Apenas no momento do abraço é que eles devem corresponder ao abraço do
filho.
Quando, durante uma constelação familiar, não se puder exigir da pessoa envolvida que faça
pessoalmente a reverência aos pais e o movimento de aproximação, seu representante na constelação
familiar pode representá-lo também nesses atos, dizendo e fazendo, em seu lugar, o que for necessário.
Isso pode, em alguns casos, produzir um efeito ainda maior do que quando é feito pelo próprio envolvido.
O movimento de aproximação para além dos pais
O movimento de aproximação e a reverência diante dos pais são bem sucedidos quando,
simultaneamente, vão além deles. Vivenciamos esses atos, quando bem sucedidos, como uma
aceitação de nossa própria origem e de suas consequências e como uma realização muito profunda
de nosso destino. Quando o movimento de aproximação e a reverência são bem sucedidos nesse
sentido pleno, o filho pode se colocar ereto e com dignidade ao lado dos pais e, de certa maneira,
no mesmo nível que eles – nem alto demais, nem baixo demais.
Ajudar crianças com histórias
Muitas vezes acontece que as crianças sabem interiormente o que precisam, mas não querem que
isso lhes seja dito. Isso precisa provir de sua própria percepção interior. Então a gente conta à
criança determinadas histórias que a ajudam a se sair de uma dificuldade. A gente conta as
histórias de tal modo que a gente se alia, e com amor, à boa percepção da criança, como se alia a
uma pessoa de confiança.
Algo mais a observar. O inconsciente não conhece a negação. Quando, por exemplo, os
pais dizem à criança: “Tome cuidado para não cair!”, a alma ouve: “Tome cuidado para cair!” A
alma não ouve o não. Por isso é útil formular tais frases de forma positiva, sem usar um não. Por
exemplo: “Cuide bem de você!”, “Chegue bem à escola!”, “Tome cuidado com a faca!”. Por esta
razão é importante formular positivamente as frases que uma criança diz numa história.
A torneira que pinga
Os pais têm problemas, às vezes, porque seus filhos já mais crescidos urinam na cama. A essas
crianças podemos contar histórias em que pequenas cenas são introduzidas: por exemplo, uma
torneira é fechada ou uma goteira é consertada.
Por exemplo, Chapeuzinho Vermelho chega à casa da avó, quer entrar pela porta e nota
uma goteira no teto. Então ela diz para si: “Vou consertar isso primeiro”. Vai ao barracão, pega
um pouco de massa, leva uma escada, sobe nela e fecha a goteira no teto, para que a varanda não
se molhe, e depois entra na casa da avó.
Ou, na história de Branca de Neve, um dos anões chega de manhã e se queixa de que de
noite choveu em cima dele e molhou sua cama. Branca de Neve lhe diz: “Vou consertar isso
logo”. Quando os anões saem para o trabalho, ela sobe ao telhado, vê que uma telha foi deslocada
e a repõe no lugar. Quando o anão chegou de tarde, estava tão cansado que esqueceu de perguntar
sobre o teto. De manhã ele esqueceu também, e tudo ficou em ordem.
Um pai cuja filha pequena urinava na cama, contou-lhe de noite histórias assim, e elas fizeram um
efeito imediato. Na manhã seguinte a cama estava seca. Mas o pai reparou algo diferente que lhe
chamou a atenção.
Antes, quando ele contava histórias à filha de noite, ela sempre prestava muita atenção
para que ele contasse as histórias da mesma maneira, sem acrescentar nem omitir nada. Porém,
contra esses desvios ela não protestou, mas os tomou como naturais. Nisso vemos que a alma
ciente da criança se alia ao narrador. A alma quer a solução, sem que isso lhe seja dito
abertamente, de forma que a criança possa fazer o novo a partir da percepção e do encorajamento.
Naturalmente a criança percebeu o que disse o pai, caso contrário não faria efeito. Mas
porque o pai não chamou o problema pelo nome, ele respeitou o pudor da criança. A criança se
sentiu respeitada porque seu pai agiu de modo a protegê-la, e pôde reagir.
Pois a criança sabe que faz xixi na cama. Isso não precisamos dizer a ela. Ela também
sabe que não deve fazer isso. Também isso não é preciso dizer a ela. Se lhe damos um conselho
ou falamos de seu problema, ela se sente inferiorizada. Se ela segue o conselho, os pais ganham
em amor-próprio, e a criança perde em amor-próprio. Rejeitando o conselho, ela ganha em amorpróprio.
Justamente porque lhe demos um conselho ela precisa fazer diferente para preservar sua
dignidade. A dignidade é o mais importante para qualquer pessoa, até para uma criança. Somente
quando a criança percebe no conselho um profundo amor é que ela pode segui-lo de boa vontade.
A despedida
Algo que frequentemente nos impede no presente é que estamos atados a alguma coisa na
infância. Pois carregamos constantemente conosco, por toda parte, as diversas idades de nosso
desenvolvimento. Assim, eu caminho ao meu lado como uma criança de dois anos, como uma de
cinco anos, de dez anos, de quatorze anos, de dezessete anos, e assim por diante. Caminhamos por
aí como uma multidão de nós. Vocês conseguem entender isso? Portanto, cada um é um grupo de
si mesmo.
Às vezes isso se torna um grande peso que carregamos. A passagem de uma idade para
outra é bem sucedida quando a anterior pode ficar para trás. Então acontece a passagem.
Portanto, quando atravessamos as portas, o que está fora fica fora. Lá fora, nós o
arrastamos conosco e é difícil deixar algo para trás.
Existe uma história bíblica de um certo Jacó. Ele lutou com o anjo à margem do rio
Jabbok durante toda a manhã. Então eles quiseram separar-se. Jacó disse ao anjo: “Não vou soltálo,
até que você me abençoe.”
Assim se passa com nossas diversas idades na vida. A criança pequena só nos deixa
quando nos abençoou, e quando estamos abertos para a benção dessa criança. Isso vale para cada
idade, mas principalmente para a criança pequena.
* Fonte: Bert Hellinger. Glück, das bleibt (Felicidade que permanece)
Stuttgart, Verlag Kreuz GmbH, 2008, p. 61-83
Tradução: Newton Queiroz
Rio de Janeiro, abril 2009
DIREITOS RESERVADOS